Quando a gente muda de país!

Quando a gente muda de país, não imagina o desafio que vem pela frente e toda a sorte de perrengue que vamos enfrentar.

Por Mila Lima

Eu me achava muito fodástica por ter alugado um apartamento só meu aos 18 anos pra morar do lado da faculdade, por ter ido morar sozinha na Bélgica aos 21.         

(mas o intercâmbio de 6 meses não foi tempo suficiente pra ter choque cultural) e por ter me mudado sozinha pra Florianópolis aos 22 sem ter parente nem aderente por lá. Então, vou resumir o que acontece quando você muda de país:

– Você deixa pra trás toda a sua história de vida, família, amigos, bichos de estimação, casa, emprego, todos os vínculos e tudo o que faz de você uma pessoa. É uma morte em vida, e toda morte gera um luto e muito sofrimento, pra quem fica e pra quem vai.

– Você também deixa pra trás todos os seus pertences. Todos os móveis e utensílios da casa que você já tinha decorado do seu jeito, a maior parte das suas roupas e sapatos, seus livros, discos, suas lembranças, memórias e recordações. Eu não tenho fotos da minha infância e adolescência, por exemplo, porque os álbuns ficaram pra trás na mudança. Você começa a sua vida com duas malas que juntas pesam menos do que o peso do seu próprio corpo. É só você e as poucas coisas que você conseguiu levar no avião.

– Você deixa pra trás a sua própria língua, sua cultura e seus costumes. Tudo o que você sabe e conhece sobre o mundo é pensando de outra forma no lugar pra onde você se muda, você vira uma criança sem pai nem mãe e tem que reaprender a viver, dentro de uma outra sociedade com valores completamente diferentes dos seus.

– A principal razão pra mudar de país é ter uma vida melhor, mas a realidade é que sua vida será pior por um bom tempo, e não apenas pela saudade ou choque cultural, mas pela falta de grana mesmo. Vai levar muito tempo pra você alcançar o mesmo padrão de vida que tinha no seu país de origem, talvez você não consiga exercer a profissão na qual batalhou pra se formar, vai levar tempo pra conseguir ter uma casa só sua, pra mobiliá-la e decorá-la do jeito que quer, pra montar todo o seu guarda-roupa e acervo de utensílios e objetos novamente. E muito provavelmente vai ter que deixar tudo pra trás de novo na próxima mudança, pois os expatriados estão muito mais propensos a mudar de país novamente quando novas condições se apresentam.

– Você virará um ser completamente deslocado da sociedade até conseguir formar um grupo de amigos. Só que por mais amigos que você faça, nenhum deles será seu amigo de infância, nenhum deles será aquele que te acompanhou em anos de escola ou de faculdade. E a maioria das suas novas amizades será superficial e efêmera pelo simples fato de que você e seus novos amigos estarão ocupados demais trabalhando e organizando a vida pra conseguirem dedicar tempo suficiente uns aos outros, como amigos de fé, irmãos camaradas.

– Você passará o dia todo falando uma língua que não é a sua e, por mais que você a domine, nunca conseguirá se comunicar com a mesma naturalidade com que se comunica no seu idioma, e isso será sempre uma barreira na sua vida.

– As coisas mais básicas da sua rotina serão modificadas. Se mudar pra Europa, você vai ter que aprender a passar suas próprias compras no caixa automático do supermercado, a conhecer todas as marcas de todos os produtos e serviços que são completamente diferentes das que você já usava no seu país há anos, vai ter que pôr gasolina no próprio carro, aprender a usar o transporte público local, dentre inúmeras outras miudezas do dia-a-dia.

– Você será sempre um estrangeiro e sempre correrá o risco de sofrer preconceito ou xenofobia. E mesmo que isso não aconteça com você, vai se sentir mal quando tiver notícia que outros estrangeiros passaram por isso, porque podia ser você.

– Você não vai conseguir voltar pra casa com a frequencia que gostaria, vai perder aniversários, casamentos, churrascos, encontros, shows e vai ter inveja dos seus amigos reunidos em fotos onde você não está, com novos amigos que você não conhece.

– Se você se muda pra um país frio sendo de um país tropical, também vai ter que aprender a viver sem o sol, sem o calor, sem a praia, sem o mar, sem a cerveja gelada, a água de coco ou o guaraná natural. Vai ter que vestir quilos de roupas antes de sair de casa e se livrar delas ao entrar em qualquer recinto com aquecimento.

Todos os que mudam de país são heróis e não desertores. Eles tiveram a coragem de encarar o desconhecido e se despir de toda a sua vida pra começar tudo do zero num lugar estranho e inóspito. E conseguiram, mesmo que aos trancos e barrancos, mudar o rumo e o destino de suas vidas.

Minha percepção pessoal é de que os expatriados são muito mais perseverantes porque a vida lhes impõe essa condição. Pra compensar tudo o que deixaram pra trás, a recompensa do país novo precisa ser muito maior, pra valer a pena. Por isso, eles se matam de trabalhar pra subir na vida ou juntar dinheiro e voltar pro Brasil. Por isso, eles buscam conhecer a cultura e os países em volta daquele onde moram, pois sabem que se forem embora depois, não podem perder a chance de aproveitar tudo o que o país e a região têm a oferecer. Por isso eles estudam tanto, seja para aprender a língua nova que precisam usar, seja para aprender uma nova profissão.

Deixo aqui a minha homenagem e reconhecimento a todos aqueles que, como eu, tiveram coragem de mergulhar no desconhecido.

 

 

 

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2 comentários em “Quando a gente muda de país!

  1. Excelente relato, Mila Lima! Eu também deixei para trás o meu país de origem (Brasil) e vim morar em Portugal. No meu caso, vim para casar com um português. Adaptar-se a uma nova cultura e a um casamento ao mesmo tempo, eu diria que é uma situação no mínimo desafiadora e que requer muita resiliência! Mas é isso! Se estamos aqui ou ali é porque estava escrito! O desconhecido sempre nos traz muito aprendizado! Também quero homenagear a todos que estão vivendo histórias parecidas como a nossa! Beijinhos!

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