História da Juliana Moro

Juliana Moro – Redenção/Pará.

Nos anos 2000 o nosso país enfrentou um grande êxodo de seus patriotas que buscavam melhoria de vida em diversos países afora. Um dos destinos mais procurado na época eram as terras lusitanas: Portugal. E foi exatamente esse país tão maravilhoso que eu e minha família escolhemos viver em 2006.
Na verdade, foi uns dois anos antes, em 2004 que tudo começou. Minha tia tinha acabado de ter uma filha, estava solteira e com um problemão financeiro… precisava de uma saída rápida e que desse frutos bons. Foi então que uma amiga a chamou para morar em Portugal. Naquele tempo o Euro era uma maravilha, quase R$4,00 quando tínhamos um salário de R$260,00. Quem não ia querer, não é?
Ela foi, trabalhou duro, em restaurantes, faxinas, guardou todas as gorjetas que ganhava, juntou dinheiro suficiente e dentro de um ano voltou, buscou a filha e chamou a irmã do meio para ir também. Essa é a minha mãe, que topou a ideia e em 2005 decidiu buscar melhoria de vida para ela e seus três filhos.
Ela, assim como a irmã e milhares de mulheres no mundo, tinha que criar os filhos sozinha (ou com a ajuda dos pais) num país com poucas expectativas e oportunidades. Essa era a melhor (e única, talvez) opção para mudar a história da sua vida. Embarcou e desembarcou com garra e determinação, ignorando todo o pessimismo que alguns jogaram, que não ia dar certo, que era tudo muito difícil, que passaria fome… Coisas que muitos até hoje gostam de fazer com os nossos sonhos.
Realmente não é fácil. Ela não chegou com um diploma na mão, nem mesmo uma cidadania. Foi como turista, teve que procurar incansavelmente por um trabalho e quando o achou, teve que dar seu tudo. Trabalhou horas a fio em trabalhos que muitos não queriam: os vulgos “subempregos”, como faxinas, empregada de mesa, de balcão, cuidador de idosos, de crianças e etc.

Em um ano ela conheceu o Paulo, um português engraçado e gentil. Naquela época era muito comum conhecer um português que se apaixonasse por você e de quebra te ajudasse, casasse e te assumisse. E foi isso que aconteceu. A primeira coisa que fez foi conseguir um belo emprego fixo, com direito a tão sonhada legalização. E a segunda foi realizar o maior sonho dela naquele momento: ter pelo menos um filho ali com eles.

Poucos meses depois, o Paulo arrumou tudo, as passagens e uma casa para que ela voltasse ao Brasil para buscar a filha mais velha, pois infelizmente, teria que ser aos poucos. E então, em setembro de 2006 ela regressou ao seu país, com a cabeça erguida, satisfeita por não ter dado ouvido aos maus conselhos, bem e feliz, e trouxe para Portugal a filha, que nesse caso, sou eu.
Eu tinha apenas 12 anos, era cheia de sonhos, apaixonada por aquela novelinha infantil da época, Rebelde, cheia de atitude e dava o maior duro ajudando meus avós e cuidando dos meus irmãos menores. Eu não sabia de nada sobre Portugal. Me recordo que ficava imaginando se Portugal era parecido com a Argentina, bem ali do ladinho do Brasil. Se falavam alguma língua estranha, se comiam comidas estranhas, se eu iria ter amigos e principalmente, se eu teria finalmente meu computador igual o que o Silvio Santos chamava de “computador do milhão”. Sim, eu era louca por um daqueles.

Também me lembro que a ficha só caiu quando eu coloquei os pés na minha nova casa, lá em Lisboa, em 20 de novembro de 2006, num lugarzinho chamado Arroja, em Odivelas. Até então eu estava tratando tudo na tranqüilidade, até mesmo na hora da despedida. Deixei tudo e todos para trás, sem muitos raciocínios, apenas querendo diversão e coisa nova. Minha mãe era a única que entendia tudo aquilo, que sabia o que estava acontecendo de verdade.
Ali começava minha nova vida, uma nova fase. Ia entrar na adolescência, tinha muito o que viver e aprender. Eram apenas eu, minha mãe e meu padrasto, e confesso que eu estava amando ser filha única. Ter meu computador do milhão (sim, eu ganhei um!), ter meu PlayStation 2, comer Cornetto pela primeira vez (porque no Brasil era muito caro), passear para lugares maravilhosos…

E então outro membro da família chegou. Minha outra tia, a mais nova, também foi viver o sonho de imigrar, chegou no comecinho de 2007 e nunca mais saiu de lá.
Eu estava vivendo a vida que pedi a Deus e o Paulo chegou com mais uma notícia para a mamãe: ela podia se organizar para buscar meus irmãos! Fiquei triste porque meus dias de filha única acabariam mas muito feliz por finalmente tê-los ali conosco e proporcionar tamanha alegria para minha mãe. E foi assim que em dezembro de 2007 a família da mamãe estava completa: meu irmão e minha irmã chegaram em Lisboa dia 24, véspera de natal, para alegrar toda a nossa vida. E ainda trouxe vovó para passear!
Éramos uma família novamente e tínhamos uma vida muito tranquila e normal. Eu estudava, fiz o ensino básico (fundamental) até 2008 e no mesmo ano ingressei no ensino secundário (médio). Para quem não sabe, em Portugal o ano letivo começa em setembro, ao contrário do Brasil, que começa em janeiro/fevereiro.
Como toda família, tivemos vários altos e baixos, em várias áreas das nossas vidas. Por volta de 2010 o financeiro foi o primeiro problema que nos apareceu. O país estava entrando naquela famosa crise – que toda a Europa passou – e as coisas só pioravam. Mamãe perdeu o emprego e o Paulo estava ganhando tão pouco no seu negócio próprio que teve que fechar e trabalhar num café.

Infelizmente, muitas famílias não sabem lidar com problemas financeiros e deixam abalar o próprio casamento. E foi exatamente isso que aconteceu com a nossa. Minha mãe e Paulo se separaram, tivemos que ir morar na Lourinhã, no interior de Lisboa, pois era tudo mais barato e teria emprego para ela. Mas tinha um problema: eu não poderia ir, devido ao meu curso do ensino secundário que não tinha nessa cidade.
Fiquei em Lisboa morando num quarto. Estava com 16 anos e quase terminando meus estudos para entrar para a faculdade. E foi exatamente aí que minha saga para voltar ao Brasil começou. Nesse período de novembro de 2010 a junho de 2011 passamos variados problemas. E um dia eu sofri um grande preconceito na minha escola, onde todos comentavam e ressaltavam que era por ser brasileira. Eu era nova e descobri que não tinha estruturas para lidar com tudo aquilo. Foi quando pedi para voltarmos ao Brasil pois já não aguentava ali.

Meus avós mandaram o dinheiro para eu voltar e morar com eles. Minha mãe acabou por aceitar e eu ainda trouxe minha irmã mais nova para passear uns tempos, já que a situação estava bem complicada. No mesmo período a minha tia, aquela lá do comecinho da história, decidiu voltar também, trazendo as duas filhas com ela.
Então, no dia 18 de agosto de 2011, eu, minha irmã, minha tia, minhas duas primas e o namorado de uma delas (um português muito doido, que levou do Brasil uma pele de jacaré que nós matamos quando acampamos no rio Araguaia). E em 2013, minha mãe e meu irmão também voltaram.
Só que hoje, todos nós, sabemos que foi uma decisão mal pensada e na hora do desespero. Todos nós nos arrependemos mas sabemos que aprendemos muito com isso. Minha mãe voltou para Portugal dia 25 de março desse ano, está super bem, trabalhando muito e muito feliz.

Hoje tenho 22 anos, sou casada há dois com um goiano muito teimoso. No momento estamos morando no Pará, nos preparando para irmos para Portugal no começo de outubro. Já estamos vendendo tudo e inclusive, hoje, dia 18/08 nós pegamos nossos passaportes. E para o mesmo mês, meus dois irmãos e meus avós também irão para morar. Para completar a família lá, só vai faltar a tia e as primas que pretendem sim voltar, mas só daqui um ou dois anos.
E depois disso tudo, quero dizer à você que tem um sonho, uma vontade, uma necessidade de ir embora, seja para Portugal ou qualquer outro país, que não desista e não se abale por maus conselhos, por pensamentos negativos. É possível sim, principalmente para aquele que crê. Então, lute, corra atrás, se organize e vá. Sua felicidade só depende de você mesmo.

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2 comentários em “História da Juliana Moro

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